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Entre Aspas: Olha, Menino...



(...) Eu me distraio com tudo e você não imagina a facilidade que eu tenho de viajar sem sair do lugar. Mas nem tudo que nasceu comigo, ficou. Algumas situações amarraram meus pés no chão, fazendo com que eu me agarrasse firmemente à realidade. Paixões platônicas, Lindo, são para crianças. Foi isso que eu repeti silenciosamente, até me convencer. E deu certo. Quando começo a me iludir por alguém, racionalizo tudo: Por que eu me interesso tanto por ele? Por que ele se interessaria por mim? Por que a gente daria certo? E funciona! Esqueço com impressionante rapidez do meu interesse. Ah, as coisas ficam tão mais fáceis desse jeito! Você não sabe, Menino, mas eu machuco as pessoas. Eu faço com que elas se apaixonem por mim como um desafio, como uma criança testando seus limites. Então enjoo do meu jogo e não dou explicações. Destruo corações que se abrem pra mim com tanto esforço, na esperança de terem encontrado alguém legal. Ainda dá pra você fingir que não me viu. Se der tempo, se você tiver o raro dom de controlar seu coração, se o sentimento não estiver suficientemente forte à ponto de você se prender, fuja. Se você nem ao menos me diferencia das outras pessoas que te cercam, como eu imagino, permaneça assim. Não se aproxime, não se apaixone. Não me escolha como a eleita dos seus dias. Escolha uma dessas meninas com perfis de orkut todos iguais, que gostam de msn, que querem ser pedidas em namoro. Essas meninas que choram e sofrem, depois esquecem e ficam submissas. Dessas que conseguem se apaixonar, se apegar, amar. Eu não sou assim. Eu sou fria e jogo com as pessoas - não por maldade, mas porque inconscientemente me envolvo com brincadeiras, que na verdade são vidas de gente que ama e sofre de verdade. É, procure a saída mais próxima e parta de vez para uma relação humana, comum, sólida, eterna na sua duração e cheia de palavras e promessas de carinho. Eu tenho aflição de toque e sou incapaz de jurar amor sem pensar e ter certezas.

Eu tentei racionalizar você. Fiz minha cartilha e decorei minha fala: não tenho motivos para me apaixonar. Mas por que é que eu conseguia falar com todo mundo, menos com você? O que me impedia de ser a excêntrica de sempre? Eu mal conseguia te falar 'oi'! Não é ridículo? Nas minhas férias, deu certo, não lembrava mais o motivo de eu ter me encantado, nem estava com saudades de ficar estática perto de você. Deduzi que você me achava a pessoa mais estranha do mundo, não cumprimentando, sentando ao seu lado no ônibus e só lembrando de respirar na hora de descer no ponto... É, a garota que não fala e não respira! Eu acharia louca, esquizofrênica. Não tiro sua razão, se você achar tudo isso de mim. Pode fugir agora, porque eu tenho um potencial enorme pra te trazer dor.

As férias acabaram, e eu vi você. Ah, como eu queria não ter visto! Como eu queria não ter lembrado da sensação de esquecer do oxigênio! Deletei a frase, mesmo achando impossível deletar alguma coisa da mente como num computador. E alguns dias depois, quando eu criei coragem de me aproximar e conversei com um amigo nosso em comum perto de você, consegui não ser idiota. Você não tem ideia do que é isso, não é? Se soubesse o que eu passo por sempre falar alguma coisa inapropriada quando eu menos quero, acharia linda minha façanha. Eu consegui ser simples, consegui não reclamar de nada, não falei palavrões, nem expus minhas inseguranças. Um desafio vencido. E então você começou a me falar 'oi'. Sabe o que é mais estranho? Eu sentia que você, por algum motivo, desviava o olhar quando eu cumprimentava algum amigo seu por perto. Não fazia contato visual de jeito nenhum, e eu ficava sem graça de te cumprimentar. E agora é você sorri e procura meu olhar, que às vezes desvio sem querer. Talvez você se sentisse assim: com medo de ser engolido, ou de admitir alguma coisa presa. Eu fujo dos seus olhos, mas depois me lembro de como me sentia na situação inversa. 'Oi', 'tchau' ou um sorriso, significando qualquer uma das duas opções anteriores, nossos diálogos não se expandem, mas nossos sorrisos, sim.

E no dia que a gente conversou pela primeira vez, por mais bobo e cotidiano que fosse o assunto, consegui ser natural. Perdi a ordem das pernas ao ir embora, mas você nem ficou sabendo desse detalhe. Foi um diálogo tão importante pra mim e você jamais saberá. Eu guardo pra mim toda a profundidade que eu queria dividir com você. Eu tenho medo de te assustar. Me controlo tanto quando você está perto... Com seus amigos falo besteira, falo demais, brinco. Mas não quero que você me ache vulgar, insana. Olha, Menino, o que eu procuro, é uma coisa estranha que muitas meninas passam pela vida sem conhecer ou sentir falta: compatibilidade. Eu procuro eu mesma nos outros, ou algo parecido. Você tem o que eu procuro e eu sei disso sem nunca termos conversado de verdade. Você gostaria de mim, se me desse espaço para mostrar. Eu sei disso.

Mas hoje, Lindo, é a última vez que eu vou passar horas sofrendo por você. Acabei de decidir, olha só que coisa boa. Porque é verdade, me apaixonei pela primeira vez e não fui correspondida pela primeira vez, mas as pessoas vivem sobrevivendo a esse tipo de coisa. Eu mesma já me levantei dos buracos mais escuros e voltei a caminhar. Se eu estiver enganada e você simplesmente for tímido demais pra sempre aproximar, esse risco fica por sua conta, porque não esperarei mais um sorriso seu pra ir embora. Assim como também não ficarei mais chateada por você não ter se despedido na sexta-feira e eu ter que esperar até segunda pra descobrir se você estava me evitando ou só com pressa. Não odiarei mais as meninas que te cercam e conseguem conversar com você enquanto eu só falo com os outros, tentando chegar perto. Dá pra viver em função de alguém que nem ao menos demonstra preocupação comigo? Não, não dá.

Hoje decidi te esquecer, mas amanhã vou te ver. Ah, esquece esse texto todo. Deixa só eu olhar pra você, sem respirar, sem falar, sem me mover. Acho que esse é o relacionamento mais humano que eu já tive: Só eu sinto, só eu sofro, só eu acho que existe.


Sobre a autora:
Verônica Heiss - também conhecida como Verônica H. - é um personagem ficcional (heterônimo) que surgiu em meados de 2005. Sua autora, de identidade desconhecida, nunca revelou muito sobre si. (...) Verônica surgiu como um escape, uma máscara. Foi a maneira que a autora encontrou de expor sentimentos sem expor sua identidade ou até mesmo de falar sobre sentimentos que não eram seus. "Eu escrevia algumas coisas e me perguntavam se eu estava mesmo triste ou apaixonada e por quem. Não, eu não estava. Não eram meus sentimentos. Mas de quem eram, então? Eu precisei nomear alguém para tomar as dores do que não me doía." (...)"Não vejo motivo no momento para isso acontecer. Tem coisas que eu digo que só a dúvida torna universal. É justamente o fato da Verônica não ter uma idade, um local onde vive ou uma opinião absoluta que a torna um pouco de todos nós. Porque na verdade todos nós somos obrigados a negar as várias idades que temos: ora somos novos e imaturos, ora somos velhos e sábios, pertencemos a vários lugares e somos essa incrível contradição. Verônica veste contradição e sai na rua, é fácil se identificar ou se inspirar nisso."

Entre aspas: Não existe paciência


Pode confiar na mulher que nunca joga fora o xampu quando termina. Porque nunca acha que termina.

São vários potes no box do banheiro. Uma milícia de cheiros. A maior parte com um resto luminoso. Alguns virados para facilitar a saída desesperada da fragrância. Um homem, diante daquela lágrima de cisne, não teria piedade e colocaria no lixo. Não sem razão. É uma sobra simbólica que apenas se mexeria colocando água. Uma massa imóvel, que mal treme. O conteúdo não presta nem para dois enxágues. Para chorar um pouco no pulso, depende de tapas na bunda do pote. Todo xampu velho é um bebê nascendo.

Mas ela não descarta. Pensa que aquilo que não perfuma seus cabelos é ainda capaz de perfumar suas mãos. Permanece com a esperança de que um dia terá uma emergência e ele será útil. Para seus olhos, nada está inteiramente morto, nada está inteiramente esgotado. Contribuem para sua crença as brincadeiras de faz de conta na infância, a sopa de folhas e o refrigerante de terra. Não depende de muito para seguir vivendo, pede um mínimo de realidade; acostumada a sempre completar por sua conta. Não existe paciência, somente fé. Mais da metade de um marido bom é imaginação feminina.

A mulher que não joga o xampu fora não jogará nenhum homem fora. A menos que ele esteja seco por dentro, acabado, sem nenhuma emoção para oferecer, consumido pelo silêncio da esponja. Ela eliminará o sujeito de sua vida após várias tentativas, até se convencer de que ele não rende nem mais espuma. Nem mais passado.

O que me leva a concluir que quem pensa demais não faz, não se arrisca, não se entrega. O pré-requisito é criado para impedir que mudanças aconteçam. É necessário ser imaturo para amar. É necessário ser imaturo para engravidar. É necessário ser imaturo para juntar as tralhas e pertences, construir uma casa em comum, e seguir ameaçado pelo humor do próximo.

Merece o amor quem trabalha por ele, quem sofre por ele, quem não quis ser mais inteligente do que sensível, quem é absolutamente idiota para sacudir um pote de xampu já findo.

Sobre o autor

Fabrício Carpinejar – Nasceu em Caxias do Sul, escritor, jornalista, mestre da literatura brasileira formando pela UFRGS, autor de dezenove livros e poeta. Conheça mais sobre o trabalho do autor no blog.


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Entre aspas: Friendzone, um lugar que não existe


Volta e meia aparece alguém nas redes sociais reclamando da tal de friendzone.

Meninos, geralmente.  Meninos não: homens.

Friendzone, o lugar onde as cruéis garotas colocam os rapazes que foram legais com elas e que achavam que, sendo legais, conseguiriam sexo. Ou amor. Ou ambos.

Gente, deixa eu falar uma coisa pra vocês: ninguém escolhe de quem gosta. Ninguém escolhe de quem fica a fim (e eu, particularmente, acho que “afim” tinha que ser junto, só queria fazer esse pequeno manifesto). Acontece. Bate. Ploft. É um conjunto de fatores diferentes para cada pessoa. Química. Tesão. Admiração. Um monte de coisas. E, como estamos carecas de saber, nem sempre é recíproco. Não é porque você acha a mina um tesão e deseja possuir seu corpo que ela vai te querer, desculpe. E ela também não escolheu outro porque você foi “legal demais”. Não existe isso de legal demais. É uma babaquice tremenda achar que mulher gosta de ser maltratada. Não gosta. Ninguém gosta. Nem mulheres, nem homens, nem cangurus, nem gatinhos, nem sapos, nem ninguém. As pessoas podem ter problemas sérios de carência e querer ficar com alguém por isso, mas certamente não é porque estão sendo maltratadas. Pode ser que ela se sinta culpada por algo. Pode ser que ela seja apenas cega e queira porque queira porque queria porque sim ficar com essa pessoa. Amores doentios acontecem com mais frequência do que imaginamos.

Assim como acontece da pessoa que você quer só te achar massa e não te querer.

Acontece.

Acontece todos os dias.

Já aconteceu com todo mundo.

E não há culpados.

Não rolou.

Você quis, ela não.

Paciência.

Acontece.

Quantas, quantas vezes eu já não passei por isso? Perdi as contas.

Eu queria, o cara só me achava legal. Não rolou, ficamos amigos.

Alguém me vê choramingando por isso?

Oquei, talvez eu tenha choramingado um pouco, porque dói, né? Rejeição dói. Mas acontece. A gente aprende a lidar.

Ela gosta de você como amigo. Tem alguma coisa em você que ela gosta, afinal. Só que ficar esperando que isso evolua para algo mais é simplesmente errado. Faz mal pra você, meu caro, viver de migalhas de esperança, e a culpa não é dela se essa for a sua escolha. Se você não quer ser amigo, ora, vou dar uma idéia maluca e selvagem: se afaste. Se o que você queria era amor, ou sexo, ou colinho, ou qualquer coisa dessa natureza e não rolou, e era só isso que você queria, do que é que você está reclamando?

Não quer ser amigo? Não tem assunto com ela? Ela só reclama de outros homens?

Afaste-se.

Cure-se da paixonite.

Você não vai ser o cara do filme que estava “o tempo todo lá” e ela só percebeu no fim. Isso aqui é a vida real. Pode acontecer de amizade evoluir pra algo mais. Pode acontecer de amigos se pegarem. Pode acontecer todo o tipo de coisa. Mas ficar ao lado de alguém que não corresponde às suas expectativas só vai te causar danos.

Então, meninos, por favor, vamos amadurecer um pouquinho, só um pouquinho, e parar de reclamar?

Isso tudo vale pra meninas que foram contaminadas com esse papinho também.

Chega, gente.

Vamos aprender a viver.

Um grande beijo, Tia Clara.


Sobre a autora:


Clara Averbuck, nascida em Porto Alegre em 26 de maio de 1979, escreve para revistas, jornais, internet e é autora de cinco livros. Para ler mais textos da autora acesse o blog.


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Entre aspas: Tratar bem


"A todos trato muito bem 
sou cordial, educada, quase sensata, 
mas nada me dá mais prazer do que ser a persona non grata 
expulsa do paraíso 
uma mulher sem juízo, que não se comove com nada 
cruel e refinada que não merece ir pro céu, 
uma vilã de novela mas bela, 
e até mesmo culta estranha, 
com tantos amigos e amada, bem vestida e respeitada 
aqui entre nós melhor que ser boazinha é não poder ser imitada."
Martha Medeiros

Sobre a autora:


Martha Medeiros nasceu em Porto Alegre em 20 de agosto de 1961 e é formada em Comunicação Social. É autora dos best-sellers Trem-Bala, Doidas e santas e Feliz por nada. 

Seu romance Divã, lançado pela editora Objetiva, já vendeu mais de 50.000 exemplares e também virou peça de teatro, com Lilia Cabral no papel principal. Martha ainda escreveu um livro infantil chamado Esquisita Como Eu, pela editora Projeto, e o livro de ficção Selma e Sinatra. É colunista dos jornais Zero Hora e O Globo, além de colaborar para outras publicações.

Quer saber acompanhar o trabalho da autora de perto? Acesse.


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Entre aspas: Pisca-pisca


“A vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca.
A gente nasce, isto é, começa a piscar.
Quem pára de piscar, chegou ao fim, morreu.
Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso.
É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda, até que dorme e não acorda mais.
A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso.
Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia.
Pisca e mama;
Pisca e anda;
Pisca e brinca;
Pisca e estuda;
Pisca e ama;
Pisca e cria filhos;
Pisca e geme os reumatismos;
Por fim, pisca pela última vez e morre.
- E depois que morre – perguntou o Visconde.
- Depois que morre, vira hipótese. É ou não é?”

Monteiro Lobato in Memórias de Emília

Sobre o autor:

Monteiro Lobato nasceu em Taubaté, São Paulo, no dia 18 de abril de 1882. Alfabetizado pela mãe, logo despertou o gosto pela leitura, lendo todos os livros infantis da biblioteca de seu avô o Visconde de Tremembé. Desde menino já mostrava seu temperamento irrequieto, escandalizou a sociedade quando se recusou fazer a primeira comunhão. Fez o curso secundário em Taubaté. Estudou no Instituto de Ciências e Letras de São Paulo.

"O Sitio do Pica Pau Amarelo" é uma de suas obras de maior destaque na literatura infantil. Foi um dos primeiros autores de literatura infantil em nosso país e em toda América Latina. Tornou-se editor, criando a "Editora Monteiro Lobato" e mais tarde a "Companhia Editora Nacional". Metade de suas obras é formada de literatura infantil.


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Entre aspas: O menino mais bonito da escola


Por dias sem fim ele havia me contado sobre seu mestrado em literatura, sobre suas aulas para decifrar Lacan, sobre sua facilidade em escolher empresas para injetar dinheiro. Mas esse era o blábláblá típico dos primeiro encontros. Todo paulistano razoavelmente interessante e grisalho versa bem sobre livros, psicanálise e negócios. Ou sabe mentir bem sobre eles.

"Eu adoro intelectuais" é o mantra que me faz colocar vestido, salto alto, rímel importado e aturar um restaurante metido a besta e uma comida com redução de alguma coisa. Eu vou porque adoro livros russos, adoro entender minhas pulsões de morte, adoro homens que falam "private equity" como se falassem "passe o sal".

Adoro até que dá meia-noite, e meu cérebro vira abóbora. A vozinha realista dentro da minha cabeça começa a matracar "se liga na pança desse desgraçado" ou "a careca dele tá brilhando mais que o brinco de diamantes que você comprou em 100 vezes". 

Foram anos de sofrimento, do pré-primário ao colegial. Vendo aqueles garotos esportistas, suados, olhos verdes. Sonhando com suas bocas e mãos e pés e sobrancelhas. Eles passavam por e eu me sentia um cinzeiro sujo numa UTI: completamente equivocada. Minha vontade era de cutucá-los e pedir desculpa. "Desculpa eu ser magrela, usar aparelhos nos dentes e ter rodamoinho na franja, ok?"

Sonhei com esses rapazes durante toda a formação da minha libido. Eles pertenciam a um mundo secreto de festas, de roupas que ficavam bem no corpo, de amigos que riam de tudo, de casa na praia. O trauma é a única coisa realmente forte do nosso caráter. Então, quando estou nos restaurantes, com meus acompanhantes e seus 842 mestrados, suas neuroses e suas verrugas peludas no antebraço, sempre me pego pensando "olha aquele delicinha da mesa ao lado, deve ser uma anta, coitado, mas que vontade de umedecer com a língua os gominhos da sua barriga perfumada".  Eu respiro fundo, renego, me odeio, aumento a terapia... mas o menino mais bonito da escola ainda é meu algoz.

Sim, eu sei que exitem homens bonitos e inteligentes e possíveis. Tudo isso no mesmo pacote. E tudo isso aqui na minha sala, agora mesmo, me perguntando se eu demoro muito para sair do computador e ir para a cama. A vida não é tão cuel. Mas, aos 12 anos, naquele recreio em que riram da minha dança numa feira idiota sobre cultura regional, viver parecia uma imensa injustiça. E essa mágoa ainda é um lego quebrado, eternamente sem encaixe, vagando deprimido e vingativo pelo limbo das minhas memórias. 


Sobre a autora:

Tati Bernardi nasceu em São Paulo,  formou-se em Propagando e Marketing pela Universidade Mackenzie e fez pós-graduação na área de roteiro e cinema. Tati também dedica-se a literatura, e tem quatro livros publicados, sendo os mais conhecidos: "A mulher que não prestava" e "Tô com vontade de alguma coisa que não sei o que é". Além disso, é colunista e cronista em revistas, blogueira e redatora na TV Globo. Pode ser encontrada nas principais redes sociais e em seu blog tatibernardi.com.br.


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